Voltei às caminhadas na Beira Rio. Depois das andanças pelas ladeiras de Lisboa, dei um descanso aos pés. Não dá para deixar de andar por muito tempo, as doutoras reclamam. Por mim, ficaria em casa olhando o rio pela janela. Fazer exercício físico nunca foi uma coisa prazerosa, mas... como sou obediente ( apenas no quesito saúde), me transformo em um pêndulo e balanço de uma ponte a outra todos os dias. Agora, na estação da chuva, caminho ao cair da tarde. Novas caras, gente jovem no percurso. Procuro em vão alguém para conversar no meio dos andantes. A saída para espantar o tédio é a música. Assim, enfio os fones no ouvido e vou pela estrada a fora cumprir a cota diária.
No Ipod, Tom, Elis e Chico; os baianos Gil e Caetano; a modernidade de Arnaldo Antunes, Nação Zumbi e Seu Jorge; Marina Lima, "Miss Eller", Rita, Nara, e Elza. Tem música francesa, americana e muito samba. Às vezes, me animo com o que ouço e canto junto. Quem me vê pensa que não bato bem da bola. Ainda bem que inventaram essas coisinhas para distrair a solidão.
Ficar em casa, ao contrário das caminhadas, me agrada bastante. Não sei costurar nem bordar. Minha mãe não me ensinou nenhuma prenda doméstica. Com ela aprendi o gosto pela leitura e a arte da conversa. Sou autodidata nas coisas da cozinha. Igualmente, não ensinei aos meus filhos as tarefas do lar. Hoje, eles improvisam direitinho. Nesses tempos bicudos a grana só dá para pagar faxineira e olhe lá! Como dizia minha mãe, “a dor ensina gemer”. E muitas vezes, conforme a precisão, eles cantam, dançam e representam ao mesmo tempo. Vi isso em Lisboa com minha filha dando conta da casa, das crianças e da profissão.
Para não perder o rumo da prosa, volto à ausência dos trabalhos manuais na minha formação. Pois é, andei preocupada com o que fazer quando me aposentar. Com a descoberta do mundo virtual, relaxei. Além dos livros, da música e da conversa, tem o computador para ajudar o tempo passar com prazer. Sou autodidata, também, na internete. Faço cada coisa que, às vezes, me admiro. Pago contas, compro passagem de avião, livros e discos; converso com amigos, mato a saudade e brinco com Tom e Felipa no Skype; leio, escrevo e sei o que se passa no mundo num instante. Com a curiosidade me atiçando vou longe e ninguém me pega. Descubro uma novidade todo dia. Só não gosto de bater papo com estranhos, acho arriscado. Mesmo assim, tenho uma página no Facebook para me distrair com as coisas inusitadas que por lá aparecem.
Desse jeito vou dando conta do recado, me preparando para quando eu não puder pisar mais na avenida, como canta “Miss Eller” ao meu ouvido.









