Terça-feira, 30 de Junho de 2009

O mundo é uma Maçã

Voltei às caminhadas na Beira Rio. Depois das andanças pelas ladeiras de Lisboa, dei um descanso aos pés. Não dá para deixar de andar por muito tempo, as doutoras reclamam. Por mim, ficaria em casa olhando o rio pela janela. Fazer exercício físico nunca foi uma coisa prazerosa, mas... como sou obediente ( apenas no quesito saúde), me transformo em um pêndulo e balanço de uma ponte a outra todos os dias.

Agora, na estação da chuva, caminho ao cair da tarde. Novas caras, gente jovem no percurso. Procuro em vão alguém para conversar no meio dos andantes. A saída para espantar o tédio é a música. Assim, enfio os fones no ouvido e vou pela estrada a fora cumprir a cota diária
.

No Ipod, Tom, Elis e Chico; os baianos Gil e Caetano; a modernidade de Arnaldo Antunes, Nação Zumbi e Seu Jorge; Marina Lima, "Miss Eller", Rita, Nara, e Elza. Tem música francesa, americana e muito samba. Às vezes, me animo com o que ouço e canto junto. Quem me vê pensa que não bato bem da bola. Ainda bem que inventaram essas coisinhas para distrair a solidão.

Ficar em casa, ao contrário das caminhadas, me agrada bastante. Não sei costurar nem bordar. Minha mãe não me ensinou nenhuma prenda doméstica. Com ela aprendi o gosto pela leitura e a arte da conversa. Sou autodidata nas coisas da cozinha. Igualmente, não ensinei aos meus filhos as tarefas do lar. Hoje, eles improvisam direitinho. Nesses tempos bicudos a grana só dá para pagar faxineira e olhe lá! Como dizia minha mãe, “a dor ensina gemer”. E muitas vezes, conforme a precisão, eles cantam, dançam e representam ao mesmo tempo. Vi isso em Lisboa com minha filha dando conta da casa, das crianças e da profissão.


Para não perder o rumo da prosa, volto à ausência dos trabalhos manuais na minha formação. Pois é, andei preocupada com o que fazer quando me aposentar. Com a descoberta do mundo virtual, relaxei. Além dos livros, da música e da conversa, tem o computador para ajudar o tempo passar com prazer. Sou autodidata, também, na internete. Faço cada coisa que, às vezes, me admiro. Pago contas, compro passagem de avião, livros e discos; converso com amigos, mato a saudade e brinco com Tom e Felipa no Skype; leio, escrevo e sei o que se passa no mundo num instante. Com a curiosidade me atiçando vou longe e ninguém me pega. Descubro uma novidade todo dia. Só não gosto de bater papo com estranhos, acho arriscado. Mesmo assim, tenho uma página no Facebook para me distrair com as coisas inusitadas que por lá aparecem.


Desse jeito vou dando conta do recado, me preparando para quando eu não puder pisar mais na avenida, como canta “Miss Eller” ao meu ouvido.

Sábado, 27 de Junho de 2009

Estrelas também se apagam









Mais um sucumbe à fama. Todos comem o pão que o diabo amassou antes de atrair multidões. Vão do céu ao inferno. O sucesso, a perseguição da mídia ou a adoração esquizofrênica do público são os causadores dessa descida definitiva aos domínios de Lúcifer, à procura do paraíso. Todos lhe vendem a alma em busca dessa adoração.Vidas alucinantes, trajetórias conturbadas. Deixar de ser gente e virar produto não é para qualquer um. Precisa ser obstinado, ter o céu e o inferno como limite. Essa é a máxima. Talento apenas, não leva ninguém à glória. Exploração, abuso sexual, drogas, ameaças de morte, medo e muita humilhação também são ingredientes da mistura letal. Sangue- sugas vivem à sombra desses mitos. Bebem o sangue, o suor e as lágrimas sem pena ou dó. Depois de ser famoso, rico e admirado, furam os olhos. Cegam ante o próprio brilho. Eles se atiraram de qualquer modo, ao sucesso, ao dinheiro e ao poder e, simplesmente, não conseguem alterar o rumo dessa viagem sem volta. Ser ícone planetário tem seu preço. Para nós seres mortais, fica difícil entender o paradoxo: com o mundo a seus pés, preferem a auto destruição. E para fazer jus ao nome, a morte tem que ser trágica. Não tem graça morrer velhinho. Assassinato, suicídio, velocidade e over dose os mantém vivo na boca do povo para sempre. Esse é o preço. Lamentavelmente, estrelas também se apagam!

"Em termos de absoluta verdade, não posso negligenciar o que me foi rico na vida. Cantar não é trabalho, é devoção, é sacerdócio. E ser artista foi o que me deixou de pé. Foi para isso que eu vim. Filho é tão forte quanto. O resto é resto” (Elis Regina)

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Sete, para dar sorte.


Daqui da varanda vejo o dia ir antes da hora. Com a chuva, ele virou noite mais cedo. Em outro tempo, num dia igual a este, já estaria pendurando balõezinhos noutra varanda. Adorava aquela casinha. Cada canto, cada cômodo. Tudo foi feito com muito esmero para compor o lugar onde iriamos viver com alegria o terceiro tempo das nossas vidas. Era esse o projeto.

Passamos dez anos sem dar muita bola para aquele pedaço de terra no meio do mato. No início, a idéia era fazer três casas para compartilharmos com os amigos a felicidade. De vez em quando, a gente subia a serra para sonhar e riamos muito ao medir o terreno, à passadas, nas vezes em que lá chegávamos. Até que um dia o sonho virou realidade.

Ao invés de três, construímos quinze casas. “Quero a 7, para dar sorte”, disse na primeira vez em que as vi no papel. E na "7" fiz compotas de frutas para sobremesa, saladas para os dias quentes e sopas para as noites de frio. Compus um jardim dentro de outro jardim e, também, plantei uma horta. Ainda na construção, cobri as paredes de hera. Tal e qual ao desejado, os dias e as noites eram leves naquela casa encantada.

Mas, como não há bem que sempre dure... tudo isso virou saudade. Não vou mais à casa 7. Não consigo vê-la sem a outra metade. Dói o coração. Nas poucas vezes em que tentei passar alguns dias por lá (depois que tudo virou saudade), em todas, adoeci de verdade. O corpo fala quando a alma entristece. Desisti da casinha de vez, pois, basta de metades.

Igual à chuva, que fez o dia virar noite mais cedo, a tristeza de lá, fez o futuro virar passado antes do tempo.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Amor Perfeito



Quem dera ter um pó de pirlim pimpim,
uma varinha mágica
ou uma lâmpada encantada.
Para num instante estar ali, juntinho.
Para dar banho, botar pra dormir
e rezar pro Anjinho da Guarda.
O meu amor por ele não é desse mundo.
Não é o maior, nem o mais doce e delicado.
É um amor diferente.
Sem nome, sem limites.
Intenso, exagerado.
Que já nasceu comigo.
O amor perfeito.
Sem decepções, sem infidelidade.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Amaro


Gosto de ficar em casa aos domingos. Nesses dias arrumo gavetas, rasgo papéis, descubro roupas, sapatos e outras coisas que não uso há bom tempo. Nesses dias, também, faço sacolas para dar destino ao que não me serve mais. Dizem, os espiritualizados, que devemos nos livrar dos entulhos para deixar a energia fluir. Para falar a verdade, não guardo nada que não tenha utilidade, mágoa é uma delas. Faz mal, adoece. Eu sei.

Enquanto espero Mana e José para irmos a um aniversário de criança, me emociono com a conversa direta do porteiro. Alias, com raras e honrosas exceções, hoje em dia prefiro ouvir o que as pessoas simples contam. Não aguento mais teatro, faz de conta e outras enganações dos “letrados” de classe média.

Meu irmão, tem umas tiradas ótimas a respeito da categoria. A melhor de todas, sem dúvida, é : “Chifre e carro do ano é preocupação de classe média”. E, quase sempre, constato que ele tem razão.

Sexta-feira, no cabeleireiro, uma fina e uma fofa, conversavam animadamente. Vestidas quase como um par de jarros ( a diferença era a cor da produção) falavam em uma festa junina que iriam naquela noite. Primeiro combinaram para ir de botas e vestido, citando a marca de cada peça. Acertado o figurino, enveredaram pela lista dos prováveis convidados que estariam no forrobodó. Aí começou a malhação. Quase não sobrou ninguém para dividir a pamonha, a canjica e quem sabe até o marido, mais tarde. Pareciam que estavam no sofá das suas casas, tamanha a tranquilidade com que se referiam aos nomes e a vida das pessoas.

No meio dos crucificados, muita gente conhecida. Mas, elas não se intimidavam com os olhares das outras pessoas daquele espaço. Ora falavam do cabelo, da gordura, ora da casa, do carro e, evidentemente, dos maridos e das mulheres das figuras. Baixaram o nível sem nenhuma cerimônia para adjetiva-los. Corno e rapariga, era elogio. Nessa altura, mudei de lugar. Vixe Maria, quanta amargura!

Enquanto isso, no domingo, o porteiro me contou que a sua mulher tinha ido embora com o vizinho. Com dignidade, me pediu algumas orientações quanto à guarda dos filhos e outros direitos sem, sequer, dizer que a ex-companheira era feia ou bonita. Chegou até a enxugar algumas lágrimas, mas não disse nada que ofendesse a mãe dos seus filhos. Dei as orientações necessárias e me coloquei à disposição para ajudá-lo, pois, solidariedade nessas horas é fundamental. Ajuda, acalma. Eu sei.

Prestando atenção no rapaz que se desconstruia a minha frente, nem notei que Mana e Chico haviam chegado pontualmente, o que é raro. Com os olhos rasos d'água me despedi certa de que ele escolheu o caminho sem volta embora não saiba, como eu, que ele é o mais amargo.

"Há três maneiras para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo."
( Confúcio
)

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Com tempo ruim, todo mundo também dá bom dia!


Mais uma vez, fui à mastologista fazer os exames de rotina. Graças a Deus, tudo bem. Como de costume, marquei o último horário. Duas horas de conversa contadas no relógio. Dessa vez, disse de Lisboa antes de tirar a blusa para ser examinada por Isabel. Para quem ainda não sabe, a doutora é portuguesa e, aqui e acolá, deixa escapar o sotaque lusitano. Dizer da minha gratidão é lugar comum. Se eu for falar das maravilhas que essa criatura fez e faz por mulheres vítimas do câncer de mama como eu, vou varar a noite, entrar pelo dia e não dou conta. Sou suspeita, é certo. Contudo, seria injusta se não reconhecesse a sua competência e dedicação.

Todas as vezes que vou ao Português, lembro daquela tarde onde pensei que os meus dias estavam contados; do medo; do desespero; da noite em que acordei numa sala de cirurgia atada a uma mesa sem entender direito o que havia se passado comigo. Agora, atravesso os corredores sem pressa, feliz por estar novamente ali. "São as voltas que o mundo dá, nega", digo a mim mesma.

Perdi o medo da morte, porém, continuo cautelosa com a doença. Faço tudo o que me mandam, não vacilo. Para o que não tem remédio, remediado está. Não me iludo quando ouço alguém dizer que estou curada. Estou na luta e assim será para sempre. Isso faz parte da minha vida, é como se eu eu fosse portadora de uma deficiência qualquer. Cardiopata ou diabética, que precisa obedecer os limites e os protocolos médicos para viver bem. Sem drama, encaro o câncer como ele é. E, desse jeito, vivo a vida com mais qualidade.

Certa vez, em uma das sessões com o doutor do juízo, tentei disfarçar a realidade. Fiz de conta que não estava nem aí para o mal, dei uma de doida para melhor passar. Pensando que a criatura não prestava atenção na minha pseudo segurança, mandei um texto às avessas, troncho de verdade, daqueles viajados, onde a gente é o Raio da Silibrina, que dá conta de tudo e nada nos derruba. Quando eu estava no auge do delírio, ele com a sua voz mansa disse: “ Naire, Naire... não esqueça que você já gastou a sua cota de ilusão”. Desde então, quando o vôo ultrapassa os limites da razão, lembro da preciosa recomendação e baixo as asas.

Pensar que tudo já passou, que foi um pesadelo ou uma história mal assombrada que me fez perder o sono uma noite apenas, de nada adianta. Muito pelo contrário, enfraquece e me impede de ver saídas e oportunidades de viver mais e melhor. A doença é um dado real, ela existe e merece a atenção necessária para que não se multiplique em outras. Aquelas que dilaceram a alma, que nos levam ao caminho de volta por estradas infinitamente mais perigosas do que as que nos trouxeram até ela.

Como a natureza, tenho o meu tempo de outono. Tempo de parar e refletir a respeito de tudo que envolve o ciclo da vida. Quando a gente pensa, usando só a razão, tudo faz sentido. Descobre que dentro da gente está o caminho e a a força. Não existe tempo bom ou ruim, existe só o tempo de querer mudar, de ter coragem para viver as coisas como elas são. Pois, *cantar nunca foi só de alegria, com tempo ruim todo mundo também dá bom dia!



*Palavras(Gonzaguinha)

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Desregrada


Passei a semana de molho. Defesas baixam, tudo aparece. Dessa vez, gripe e conjuntivite ao mesmo tempo. Repouso, vitamina “C” e soro gelado, curaram as duas. Para completar, quase fui extorquida por dois motoqueiros que vieram a minha porta cobrar uma infração que não cometi. Mas essa é uma história inusitada, que prefiro esquecer. Ave Maria, quase entro em pânico e não boto o pé fora de casa nunca mais. Ainda descobri um desconto mal assombrado na minha conta do banco. Tudo isso me tirou o sossego, uma loucura!

Como tudo na vida tem dois lados, a semana passada também teve coisa boa. No domingo, aconteceu o batizado de José, que cada dia fica mais lindo. Cabelo cacheado, olho azul e pele cor de rosa lhe assemelha aos anjinhos da Madre Deus, onde foi a cerimônia. E como acontece nessas datas, mais uma vez, me esmerei nas coisas da mesa. A gente tem um cardápio próprio para essas ocasiões, e por mais que queira inovar, finda tal e qual aos outros. Saladas, sanduíches frios, tortas de queijo, terrines, pastas e muitas sobremesas compõem o menu. Tudo feito com carinho para os mais chegados, evidentemente.

Sou chegada numa comemoração. Aniversário, Natal, Dia de Mãe, de Pai, das Crianças, não deixo passar em branco por nada neste mundo. Nada mega, tudo pequeno, para vinte pessoas no máximo. Só não fiz festa de casamento nem formatura para os meninos. Eles não gostam, acham desperdiço de dinheiro. Preferiram viajar quando terminaram a faculdade e, arrumar a casa quando se juntaram aos companheiros, no que fizeram muito bem. Sei de gente que vende o que tem e o que não tem para fazer festa de arromba nessas ocasiões. Em contrapartida, nunca cruzaram o Atlântico e sequer tem um sofá decente para descansar. Claro, quando a grana dá para fazer a festa, arrumar a casa ( sem contar com os presentes) e abrir as asas, não tem como não se animar e fazer uma. Para falar a verdade, não gosto de festão, acho impessoal. Essa coisa de “gregos e troianos”, não é comigo. Aliás, nos últimos tempos, nem dou e nem vou à festas. De vez em quando, reúno os de sempre para tomar um café, caprichado, é certo.

Este ano faço sessenta anos e motivo não me falta para uma bela comemoração. Daqui pra lá, decido se junto as duas dezenas que moram no meu coração aqui mesmo na Beira Rio ou vou apagar as velinhas à beira do Tejo, no Adamastor. Para seguir a regra de não ter regra, de não planejar ou programar mais nada, quem sabe, terei esse dia como outro qualquer, onde abro a janela e atiro a flecha do desejo, simplesmente.